terça-feira, 28 de julho de 2009

Extra! Extra! Textículos de Mulher também são poderosos amuletos

Na tradição brasileira, existem diversas formas de espantar encostos e afins, tais como: ir à benzedeira, colocar galho de arruda atrás da orelha, tomar banho de sal grosso ou ainda... criar um blog chamado Textículos de Mulher. Primeiro, se o cara for analfabeto, vai pensar que você é um travesti, porque com esse nome, ele vai achar que você só pode ter bolas. Ou então, vai ver a cara da Marlene Dietrich fumando e de smoking e vai achar que você bota as aranhas pra brigar, como diria Raul Seixas.



Está rindo porquê, Dileta Audiência? Isso aconteceu! Nos esforços do "Desencalha, Bozo!", meu querido amigo Gazela mandou o link deste cafundó eletrônico a quem ele julgou adequado mandar e o resultado foi desastroso. (Pobre amigo. Esqueceu que a tradição machista manda a mulher conquistar um homem pelo estômago ou pela cama e jamais pelo cérebro.) Sabe o que aconteceu? O John Doe em questão bateu o olho no blog e soltou: "Pô, mas essa mina é lésbica!"


Eu nem sabia disso. Gazela me contou quase um ano depois, me explicando porque não apresenta mais ninguém nem para mim e nem para outra pessoa que seja por causa desse episódio, que o desagradou um tanto. Apesar de achar a atitude do John Doe - que graças ao Barbudão, eu nem conheço - totalmente primeva, eu ri. Eu nem poderia ficar ofendida - tenho amigos e amigas, além de parentes que são gays e sei que isso não é nem uma ofensa. (Ofensa é que se eu fosse lésbica, eu não ficaria no armário. Sei que teria culhões para assumir - usando mais uma metáfora fálica, para divertir a dileta audiência que consegue entender e confudir essa gente bur... quer dizer, sem humor.)


Como sou movida por uma curiosidade narcisista sobre como as pessoas me veem - sou uma assumidamente insólita e controversa, então sei que causo um furor em gente comum - fiquei me perguntando qual foi o código que o estupendo ser humano leu neste humilde cafundó para chegar a tão brilhante conclusão. É o nome? O layout? As fotos? O teor dos textículos? Na verdade, não quero fazer este levantamento para mudar estes elementos. Se eles servem para espantar gente dessa estirpe da minha vida, quero mais é aprimorá-los, porque descobri que meus amadíssimos Textículos de Mulher, além de ser um meio para fazer uma das coisas que mais gosto na vida, que é escrever, são um verdadeiro amuleto contra bocós. Viva meus textículos e minhas bolas cerebrais!

*Créditos da imagem: http://conversadeperua.blogspot.com/2009/01/frases-marlene-dietrich.html (Vale pela espirituosíssima frase de Dietrich)

Sobre Saramago, Twitter e Mussum Day

*Aviso aos navegantes: este textículo só é suportado em cérebros com o Software "Duplipensar 2.1"



Está provado: em matéria de redes sociais, o último grito da moda é o Twitter, mesmo que seja um grito de até 140 toques de teclado, só. Segundo o escritor português José Saramago , não é nem grito, é grunhido mesmo. O escritor, que gosta de lançar mão de "frases longas e bem elaboradas", declarou em uma entrevista ao jornal O Globo, sobre a nova febre: "(...)Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

Podem me bater, nunca li Saramago. Nada contra, é que nunca caiu na minha mão, se cair um dia, eu leio. Isso significa que não posso falar dele com profundidade, mas é interessante a minha reação à opinião dele a respeito da tendência ao monossílabo, porque tenho motivos para concordar e discordar dele em igual medida.

Concordando: estamos vivendo um tempo de esvaziamento da palavra e o pior, do seu sentido. Como bem observa Vizinhíssimo, a imagem vai ganhando contornos digitais, altíssima definição e as tecnologias sonoras, conforme avançam, vão ficando cada vez mais pobres em fidelidade (vinil - CD - mp3). Quem leu 1984, sabe a importância que a Novilíngua tinha para o regime totalitário - a ideia era tornar o idioma cada vez mais sintético, com menos palavras possíveis, para se tirar o poder de reflexão das pessoas, de perceber as nuances da realidade e exprimir essa percepção. Não pelos mesmos motivos, mas estamos vivendo essa tendência à Novilíngua hoje. Exemplo: você fala "miguxês"? Gente velhinha como eu há de convir que esse dialeto internético soa bem como grunhidinhos, bem como disse Saramago. Estou em sala de aula, então sei muito bem o sacrifício que é desenvolver um discurso mínimo que seja. A grande maioria da molecada não consegue acompanhar. Não é nem que eles julgam chato o que estou falando, a maioria para de ouvir antes de chegar a essa conclusão, simplesmente porque não conseguem, não tem o ouvido treinado para formas de comunicação mais lentas, já que o mundo digital é ultrarrápido, e deixa os dinossauros da sala de aula como eu, a comer poeira, com toda "tecnologia" disponível na grande maioria das escolas para os professores - giz, lousa, saliva e olhe lá. Então, por essas e outras, concordo com Saramago.

Discordando: apesar de ser uma verborrágica incorrigível, não creio que períodos longos sejam imprescindíveis para exprimir ideias longas, às vezes é até o oposto. Uma palavra só, deixada como um fio solto, pode deixar um monte de sentidos à solta também, e provocar muito mais que um discurso "pequenino" de Fidel Castro (diz a lenda que os menores deles tinham no mínimo umas duas horas). Para a comédia, para um hai-kai, poesia concreta ou mesmo para a composição, a concisão é sim, a alma do negócio. Na literatura dramática, é recomendado ao novo dramaturgo evitar diálogos só com monossílabos, mas Nelson Rodrigues, por exemplo, fazia isso como ninguém, sempre abusando das intenções de fala do ator e o resultado era quase sempre, fantástico. Titio Shakespeare também dizia: "A brevidade é alma da sagacidade." Então, acho até bacana ter só aqueles 140 toques para exprimir uma ideia, porque me tira do conforto de uma postagem sem fim. Quem me lê há algum tempo sabe que estes textículos de "ículos", não tem nada, mas é como eu disse no começo: sempre primando pela brevidade, prolixidade ou incoerência, ou o que vier primeiro. (Escrevi assim, porque já contava que não seguiria um padrão.)

Estou usando o Twitter faz pouco tempo: depois de uns três convites chegando na minha caixa de entrada, resolvi aderir. E como eu disse, o limite de caracteres estão me ajudando a ter 'timing' na hora de soltar a piada e também gosto de como ele pode exprimir coisas e momentos bem fugazes, aquele que quando você pára para olhar, já passou. Sem contar que gente bem bacana ajudou a "fazer" o Twitter, como o Marcelo Tas, por exemplo, que até o fechamento da edição da Continuum (revista do Itaú Cultural), tinha 118 mil e tralalá seguidores. Ainda não sei bem que bicho pega lá, mas o poder de mobilização é grande. Dizem que, em matéria de trend topics- ranking dos assuntos mais abordados no Twitter- mais que o Fora Sarney, só mesmo o Mussum Day. Cacildis!
Um textículo que começa com Saramago e termina com Mussum é no mínimo surreal, mas não é por isso que vou me furtar a conclui-lo:


Do grunhido ao sermão, o que importa é o sentido: fazer, não fazer, inventar, que seja. Palavra é subversão.



Ai! Eu não resisto a uma nota no final:
*A imagem do textículo é um verdadeiro achado. Nunca tinha me ligado que Mussum é um palíndromo! Benvindo ao maravilhoso mundo das palavras. Créditos da imagem: www.eupodiatamatando.com

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Piada amywinehouseana pronta 2.0

Essa chegou até mim através do Vizinho, que ficou impressionado com a frase de Lupicínio Rodrigues: "As mulheres que mais me chutaram foram as que mais me fizeram ganhar dinheiro". Pois é, amizade, agora nem se vingar de um fora com arte você pode mais, tem que dar comissão para o (a) infeliz que te fez sofrer. É mole?



"O ex-marido da cantora Amy Winehouse, Blake Fielder-Civil, estaria prestes a pedir indenização à artista por ter sido usado como inspiração para músicas.

Blake deve pedir uma indenização de 6 milhões de libras (equivalente a R$ 19 milhões), de acordo com o site do jornal britânico News of The World.
No processo ele deve usar argumentos envolvendo os problemas que teve com Amy.O disco "Back to Black", responsável pelos sucessos de Amy, foi escrito no período em que os dois estavam em crise e envolvidos em boatos de traição.
"Amy escreveu Back to Black quando Blake a deixou, mas qual o motivo para ela dar algo para ele por tê-la deixado mal?", indagou uma amiga da artista ao jornal.
Já Winehouse adiantou dizendo que não pretende dar nem um centavo ao ex-companheiro.

"É mole? Mas sobe, ora essa! :
Estava caçando imagens da Amy para colocar no textículo, mas não deu, a bicha tá feia demais. Em compensação, achei uma preciosidade cômica: os antepassados brasileiros de Winehouse.
fubap.org/vladivostok/tag/amy-winehouse/
Imperdível!

sábado, 18 de julho de 2009

Furo de última hora

Para mim e não para a notícia, que fique bem claro. Achei esta notícia enquanto caçava imagens para o textículo anterior:

01/07/2009 18h07
Karl Malden, de Um Bonde Chamado Desejo, morre aos 97 anos
Ele concedeu uma longa entrevista para os extras de Uma Rua Chamada Pecado (ai, que bronca deste título em português), falando da primeira montagem da peça, da amizade com Marlon Brando, da experiência de trabalhar com Elia Kazan. Um ator de sólida e longa carreira, um coadjuvante de peso. E era o último sobrevivente que andou no bonde de Tennesse Williams.

Um Bonde Chamado Desejo

Todo mundo já pegou este bonde, eu por pouco não me esmaguei nele, descendo ladeira abaixo. Tenessee Williams mostrou que pegar este bonde pode ser trágico, mas não se desiste dele. Tomei uma overdose desse cara nos últimos tempos.

Assisti a Gata em Teto de Zinco Quente (com um Paul Newman lindo e uma Liz Taylor deslumbrante), e como nunca tinha lido sua obra mais célebre, resolvi dar uma conferida na peça e comprei uma edição barata de bolso de Um Bonde Chamado Desejo e no último domingo, encontrei o DVD da versão cinematográfica deste texto a um preço módico, cujo título em português sei lá por qual motivo se tornou Uma Rua Chamada Pecado. O título original (A Streetcar Named Desire) é a cara do texto, achava mais justo uma tradução literal. Depois eu vi que muita coisa do original foi mudada, para escapar da censura, e que a mudança do título é um fato mínimo em relação a mudança da gênese do conflito da protagonista.

Quando se assiste a um filme baseado em um livro que já foi lido, geralmente a preferência é pela obra original ou a gente lê o livro depois de ter visto o filme e percebe que o filme não é tão bom quanto o livro - li O Diabo Veste Prada e descobri que Andrea Sachs não era aquela tonta com a cara da Anne Hathaway. No caso de Uma Rua Chamada Pecado, mesmo com as perdas em relação original, isso não aconteceu. Adorei o filme. Talvez porque o roteiro foi assinado pelo próprio Tenessee Williams e o diretor foi o mesmo da primeira montagem - Elia Kazan, com o elenco teatral em peso, exceto a protagonista, no filme vivida pela Vivien Leight, que também interpretou Blanche no teatro, só que em Londres (alguém lembra da Scarlett O´Hara, de ...E o Vento Levou ? Então, é ela alguns anos mais velha, mas uma atriz ainda sensacional que correspondeu exatamente à imagem que fiz da quase-doida Blanche DuBois enquanto lia o texto da peça).
O brucutu Stanley Kowalski é um caso à parte. É mau-caráter, nojento, semi-humano, mas está no corpo (e que corpo!) do Marlon Brando, interpretando seu personagem com uma fúria impressionante. Morre-se de ódio e de tesão por este cara.



Este DVD é um verdadeiro achado: duplo, no primeiro disco apresenta o filme em sua versão integral, contendo as cenas cortadas para o filme não ser condenado pela Legião da Decência(Pensou sacanagem? Foi só o olhar decidido da Stella antes de correr para seu marido depois de ter tomado uns sopapos do próprio e o blues quente que toca ao fundo no primeiro contato de Blanche e Stanley, simbolizando uma tensão sexual entre os dois) e o segundo, com extras sobre a montagem teatral, o teste de Marlon Brando para Um Rebelde Sem Causa (para o personagem que se tornou antológico com James Dean), detalhes sobre a censura e os takes não utilizados para o filme.

Fui totalmente tragada pelo filme, chorei mais de uma hora pelo trágico destino de Blanche Dubois e perdi uma rara tarde de ócio com este DVD de Informações Especiais. Não sou cinéfila, só ando louca por cinema ultimamente. :P

Gostou? Morra de inveja:
Uma Rua Chamada Pecado, 1951. Dir: Elia Kazan. Com Marlon Brando, Vivien Leight, Kim Hunter e outros.
Um Bonde Chamado Desejo, de Tennesse Williams. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. L&PM Pocket, 2008.

sábado, 11 de julho de 2009

Ídolos

Ah, ídolos. A pseudo-morte do Michael Jackson e as comemorações do 50 anos de carreira do Roberto Carlos tem me feito pensar como a vida fica divertida com eles.

Minha mãe sempre dizia para minhas irmãs (com quilos e quilos de pôsteres e revistas primeiro do Menudo e depois do New Kids On The Block) que idolatria era pecado, sendo ela própria, fã-fanzaça-fanzoca do Rei: mais da metade dos discos de vinil de casa são de Sua Majestade O Brasa, mora?

Lá pelos distantes anos 1980, eu não escutava discos, eu via discos. Crianças não mexiam nas ainda incipientes parafernalhas eletrônicas e quando uma mãozinha esperta se aproximava do 3 em 1, era batata escutar: "Tira a mão daaaaaaaaaaaaííííííííííííííí, meninaaaaaa!". O máximo que a gente fazia sem ter os tímpanos estourados era ligar a TV -sem controle remoto.

Com essa restrição tecnológica me restava entrar no meu mundim estranho e perder tardes e mais tardes fuçando os discos de casa, o que explica o fato de a memória do que eu escutava por tabela quando era criança ser visual. (Eu disse que era estranho!) Manusear as capas dos discos era muito mais fácil para minhas mãos pequenas de então, do que equilibrar o braço do toca-discos entre dois dedinhos e colocar a agulha no início da faixa com precisão.

As capas dos discos então, é o que restou de tudo, apesar de ainda existirem os vinis. Depois de quebrar o toca-discos, a gente matava a saudade olhando para elas, grandes e muito mais vistosas que os encartes de CD. Duas capas povoam meu imaginário até hoje: do disco da Clara Nunes, a Guerreira, com aquela imagem célebre, coroada de búzios e olhando ao longe e o Thriller, do Michael Jackson. Sim, texticular audiência: a família Teodoro contribuiu para as estatísticas do Guiness Book. Eu olhava perplexa para a capa e pensava: Ué, ele era negro???? Nem lembrava das músicas do álbum, mas tudo indica que dei meus primeiros passos na Vila Ede escutando isso por tabela, porque ao escutar Thriller agora, eu reconheci todas as músicas - Beat It, Billie Jean e Thriller não valem, é claro - porque são os maiores hits do álbum.

Pois é, procura-se este exemplar do disco mais vendido em toda a história desesperadamente. Há uns três anos atrás, fui mostrar este disco para uma amiga e cadê o dito cujo? Sumiu, escafedeu-se, finou-se. Então, de todas as dúvidas que povoam a morte do ídolo, para mim a maior delas é: Onde foi parar meu Thriller? Paga-se bem, porque isso é pior que procurar agulha no palheiro. Já estou até conformada, crendo até que achar o Santo Graal é mais fácil.

Pelo menos aqui em terras tupiniquins, os holofotes estão mais voltados para a turnê do Rei do que para a morte do Rei do Pop. O que a gente não faz para agradar a nossa mãe? Fui comprar os ingressos do show do Brasa hoje e passei duas horas dando com os burros n´água tentando comprar os benditos no site de uma rede de compra de ingressos chamada Ingresso RÁPIDO. Fico pensando se a rede se chamasse Ingresso Lento, quantos dias essa provação iria durar. A turnê do mais popular artista brasileiro, patrocinada pelos gigantes Nestlè e Itaú, não tem uma operação específica de venda de ingressos. O Rei não merecia um hotsite só pra ele, ora essa?

Resultado: tive que ligar. Quando consegui, era a 74ª na fila de espera e quando consegui comprar, tinha a cadeira azul, Vip dos Vips? Que nada, os clientes Personalitté paparam todas, sem exceção. Assim não tem nem graça ser classe média! Nunca quis tanto ser cliente Irritaú Personalittè.

O máximo que consegui foi o setor verde, meio de banda, na penúltima fila, desembolsando mais de 300 cru e falando com um atendente pra lá de garoto-enxaqueca. E para que fazer tudo isso? Além de deixar Betona feliz, uma maluca por música perderia este momento histórico? Mais que assistir à turnê de 50 anos de carreira do Roberto Carlos, só ver o Jimi Hendrix tocando Star Spangled Banner em pleno Woodstock. Mas para conseguir isso, só com sessão espírita ou máquina do tempo, e não disponho de nenhum dos recursos agora. Ou seja: que venha o Rei!

Peço a texticular audiência que lancem mão de seus credos religiosos, sejam lá quaisquer que forem, porque há outra provação que está por vir para chegar no Ginásio do Ibirapuera: o trânsito!

E é para mamãe esta cambalhota*!

Notas:
* Outra história da carochinha, mas esta é da minha irmã. Ela ficava olhando na janelinha da porta da casa da Vila Ede, morrendo de medo, toda vez que minha mãe ouvia a fita do Brasa com a música: "O leão está solto nas ruas, já faz uns dias que ele fugiu...." Não é de se estanhar que ela fosse brincar comigo ainda bebê, usando um coelho azul com fundo de ferro. Eita, era de Aquário!

* Meu pai também gosta de Roberto Carlos e foi ele que ficou esperando no telefone, porque sabia que eu ia desistir, se eu ficasse na linha. Morrer de ciúmes do Brasa, só mesmo o Lineu Silva, dA Grande Família, porque com meu pai não tem crise.

* E a imagem que ilustra este textículo é uma das minhas capas preferidas - o disco também - de Sua Majestade O Brasa, com pérolas como Eu sou Terrível, Quando e O Sósia.

sábado, 4 de julho de 2009

Orgulho de ser gente

Quer ver como Educação virou futebol? Quem mais fala de Educação? Gilberto Dimenstein (jornalista), Içami Tiba (médico), sem contar um tal de Gustavo Não-Sei-O-Quê¹ (economista) - este último não tem nem um mestrado na área ou ao menos uma pós em docência do ensino superior para falar uma linha sequer sobre educação com alguma propriedade. Todos estes apontam o "fracasso escolar", expressão banalizada de uma maneira tal, que se transformou numa instituição difícil de ser derrubada, pois serve de munição para as formulações e teorias destes "figurões". Se de repente tivermos uma educação digna da Escandinávia, de quem eles vão falar mal, na falta dos professores? Dos lixeiros? Dos garis? Dos personal stylists?

O fato é que certas coisas foram feitas para não dar certo e a Educação escolar, nos moldes tradicionais, é uma delas. Até porque se der certo, um monte de burocratas sentados vão perder o emprego. A gente trabalha engessado, escola é uma instituição engessada, num formato que remonta ao fim do século XVIII, aliás! Ou seja, não existe fracasso escolar, ele está dando muito certo.

Estou, a partir de agora, na contramão do coro de lamentações que até nós, professores ajudamos a engrossar: está na hora de falar de iniciativas bem-sucedidas.

A Secretaria Municipal de Educação possui um projeto de rádio escolar intitulado EDUCOM e a escola onde trabalho participa deste projeto. Como estava parado há algum tempo e na iminência de perder os equipamentos por conta disso, a coordenação pedagógica pediu para reativarmos este projeto, repletos de possibilidades pedagógicas. Nova na escola, senti meus olhos míopes brilhando neste momento, afinal eu sempre quis trabalhar com rádio, e é lógico que dei meu nome e a cara à tapa para participar desta empreitada.

Desde 28 de maio, estamos tocando o projeto de reativação da Radio Jovem Cidadão, com dois ou três alunos de algumas turmas do Ciclo II e a molecada é talentosíssima. Estávamos em compasso de espera até sábado passado, 04/07/2009, quando a radio funcionou ao vivo na Festa Junina da escola, com inserções que divulgavam desde o Conselho de Escola até as matrículas para o EJA, anunciando as barracas e as atrações da festa. Tudo muito simples, porém eficiente e regado com o carisma dos nossos meninos e meninas, agora locutores, roteiristas, operadores de som e tudo mais que uma rádio de verdade tem direito. Ah, antes que eu me esqueça, também me aventurei na locução neste dia.

Este dia funcionou como um pré-lançamento da rádio, que funciona pra valer a partir do segundo semestre. Já temos uma grade de programação montada com música, informação e prestação de serviços, um acervo variadíssimo montado a toque de caixa, para contar com uma programação musical que vai do funk ao samba-canção, e alguns roteiros prontinhos para rodar, sem contar os canais de comunicação via Internet, para interagir com a galera.

Grande parte destas ações partiram espontaneamente da garotada, rápida no gatilho a ponto de me deixar zonza, com tantas ideias para organizar. E olha que me deixar zonza é tarefa para poucos, porque sou ligada no 440.

Então só posso agradecer ao poder ultrajovem destes meninos e meninas. Será que vou esquecer de alguém? Vamos lá: Murilo, Douglas, Victor, Fabio, Jéssica, Sarah, Eduarda, Cássia, Cris, Alan (o único valente a operar o som das 8 às 15 da tarde), Prof Nelson, pioneiro nesta iniciativa e veterano da Radio Jovem Cidadão, e à Mariana, minha parceira no Velharia: aquele abraço!

Lembrando a todos que estamos apenas começando, porque muita coisa boa ainda está por vir!
Uma cambalhota coletiva para os que ainda preferem o fracasso escolar!

Nota:
1. Lembrei. O nome do cabra é Gustavo Ioschpe. O bonitão fez mestrado em Economia em Yale! Mas por que cargas d´água não vai falar de Economia? Só a Veja para nos brindar com bobageiras-de-terno de tão alto nível.

2. A imagem não precisa de créditos, porque é minha-feita-por-mim-mesma. Quem quiser ver as outras, estou postando no Orkut.